Livros em travessia: comércio e difusão dos livros escolares no Atlântico
Entre navios, livrarias, tipografias e casas comerciais, este livro investiga a circulação e a comercialização de livros escolares na Província do Ceará, especialmente em Fortaleza, na segunda metade do século XIX. Ao acompanhar os caminhos percorridos pelos impressos vindos de Lisboa, Paris, Liverpool, Havre e Rio de Janeiro, a obra revela como o comércio livreiro se articulou às transformações econômicas, urbanas e culturais do período, conectando o Ceará às grandes redes atlânticas de circulação de mercadorias, ideias e práticas educacionais.
No primeiro capítulo, Os livros atravessam o Atlântico, analisa-se o intenso movimento de importação de impressos e o papel desempenhado por livreiros, comerciantes e periódicos na constituição de um mercado de livros escolares na Província. A partir de anúncios de jornais, relatórios da Alfândega e registros comerciais, evidencia-se como livrarias como a Joaquim José de Oliveira & Cia e a libro-papelaria de Gualter Rodrigues Silva atuaram como importantes intermediárias entre editoras europeias, a Corte imperial e os leitores cearenses. Mais do que simples mercadorias, os livros aparecem como objetos de circulação cultural, atravessando oceanos e inserindo Fortaleza em um circuito internacional de ideias pedagógicas, religiosas e literárias.
O segundo capítulo, Os livros no comércio de variedades, desloca o olhar para o cotidiano das práticas comerciais e para a diversidade de estratégias adotadas pelos livreiros a fim de sustentar economicamente seus negócios. Em uma sociedade marcada por baixos índices de escolarização e por um público leitor restrito, o comércio de livros coexistia com a venda de medicamentos, papéis, artigos religiosos, gêneros alimentícios, loterias e objetos domésticos. Nesse contexto, os livros escolares ganhavam espaço entre mercadorias variadas, revelando não apenas os limites do mercado editorial oitocentista, mas também a criatividade e a capacidade de adaptação dos comerciantes locais.
Ao investigar anúncios, catálogos, correspondências e notícias publicadas na imprensa cearense, a obra contribui para os estudos da História da Educação, da Cultura Escrita e do Livro, demonstrando que a expansão dos impressos escolares esteve profundamente ligada às dinâmicas do comércio urbano, às redes transatlânticas
e às experiências de homens que fizeram do livro não apenas um instrumento de instrução, mas também um negócio e um símbolo de modernidade.
O terceiro capítulo, Os livros escolares no circuito livreiro, discute a formação e o desenvolvimento do comércio de livros escolares em Fortaleza, entre as décadas de 1860 e 1890, acompanhando os circuitos de circulação dos impressos, os agentes envolvidos nesse mercado e as estratégias que possibilitaram a expansão das obras destinadas à instrução primária e secundária na Província do Ceará. A partir de anúncios publicados na imprensa cearense, especialmente nos jornais A Constituição, Cearense, Pedro II e Libertador, observa-se como os livros escolares passaram a ocupar espaço cada vez mais significativo no comércio urbano, dividindo as vitrines e os catálogos das livrarias com romances, tratados jurídicos, obras religiosas, dicionários, almanaques e produções científicas.
Ao acompanhar a trajetória da livraria Joaquim José de Oliveira & Cia, principal estabelecimento livreiro da capital ao longo da segunda metade do século XIX, o capítulo evidencia como o comércio de impressos escolares se articulou às redes transatlânticas de circulação de mercadorias e ideias. Livros vindos de Paris, Lisboa e Rio de Janeiro chegavam à Província por meio dos vapores que conectavam Fortaleza aos grandes centros editoriais do período, revelando a inserção do Ceará em um amplo circuito cultural e comercial. Nesse movimento, autores nacionais e estrangeiros, como Thomaz Pompeu de Souza Brasil, José Ignacio Roquete, Achilles Monteverde, Pierre Larousse e Antônio Trajano, passaram a compor o universo de leitura escolar disponível na capital cearense.
O crescimento do mercado de livros escolares esteve ligado às transformações educacionais e sociais em curso nas últimas décadas do século XIX. A expansão de instituições como o Liceu, a Escola Normal, o Ateneu Cearense e os colégios religiosos ampliou a demanda por compêndios destinados ao ensino da leitura, da gramática, da aritmética, da geografia e da história. Paralelamente, o desenvolvimento das edições baratas e populares procurou atingir um público mais amplo, formado não apenas pelas elites ilustradas, mas também por setores médios urbanos e famílias que buscavam inserir seus filhos no universo da instrução formal.
A obra analisa ainda a atuação de novos agentes do comércio livreiro, como Gualter Rodrigues Silva e Lacy Wardlaw, figuras que contribuíram para ampliar a circulação de impressos escolares e religiosos na Província. Mais do que comerciantes, esses sujeitos participaram ativamente da vida pública, das associações beneficentes, da imprensa e das iniciativas educacionais, demonstrando que o comércio de livros estava profundamente relacionado às sociabilidades urbanas e aos projetos de modernização cultural do período.
Ao articular História da Educação e História do Livro, esta obra busca compreender como os livros escolares participaram da construção de práticas de leitura, de projetos educacionais e de formas de sociabilidade urbana no Ceará do século XIX. Nesse sentido, o estudo evidencia não apenas a expansão do ensino e da cultura escrita, mas também as estratégias de adaptação e sobrevivência dos agentes envolvidos no mercado livreiro, em um contexto marcado pela modernização dos transportes, pela ampliação das redes de comunicação e pela crescente valorização da instrução.
Destinado a pesquisadores, estudantes e interessados na história da educação e da cultura escrita, este e-book oferece uma leitura sobre os caminhos do livro escolar como objeto histórico, mercadoria e instrumento de formação, revelando como ele atravessou oceanos, chegou às prateleiras e se inseriu no cotidiano da sociedade cearense oitocentista.
Livros em travessia: comércio e difusão dos livros escolares no Atlântico
-
DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.417261805
-
ISBN: 978-65-258-4241-7
-
Palavras-chave: 1. Livros escolares. 2. Comércio editorial. 3. História do livro. 4. Difusão cultural. 5. Educação – História. I. Morais, Cleidiane da Silva. II. Título.
-
Ano: 2026
-
Número de páginas: 68