Entre afecções e instituições: produções de sentidos em uma experiência de ensino
Esta coletânea reúne os trabalhos produzidos durante a disciplina optativa sobre Análise Institucional, ofertada pelo Programa Acadêmico em Ciências do Cuidado em Saúde da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, da Universidade Federal Fluminense. A jornada formativa teve início em 14 de julho de 2025, em formato de módulo de 9h às 16h, com a discussão dos principais conceitos que fundamentam o campo da Análise Institucional.
Como proposta para a finalização da disciplina, a professora Ana Lucia Abrahão sugeriu que, ao longo dos encontros, cada participante construísse sua própria “caixa de afecções”, reunindo diferentes elementos, objetos, registros e produções que atravessassem a semana de estudos.
A disciplina foi encerrada em 18 de julho, com a apresentação das produções que foram depositadas na “caixa de afecções” desenvolvidas pelos estudantes, provocando um debate sobre os conceitos da Análise Institucional e a aproximação com os projetos de pesquisa de cada estudante. Dessa forma, foi sendo composto um mosaico de reflexões, experiências e afetos mobilizados ao longo do percurso formativo.
É importante destacar a utilização da “caixa de afecções” como recurso pedagógico e, simultaneamente, como dispositivo analítico para a produção de sentidos em torno dos temas e conceitos trabalhados na disciplina. Trata-se de uma caixa — física ou virtual — pensada para acolher tudo aquilo que emergiu ao longo das discussões provocadas durante os encontros da disciplina: ideias, reflexões, sentimentos, imagens, provocações e estranhamentos. Esse artefato não funcionou apenas como um repositório, mas como uma tecnologia de envolvimento para o aprendizado, um convite para que cada estudante participasse ativamente do processo formativo, contribuindo com suas próprias afecções, autoavaliação e, assim, co-produzindo o percurso coletivo da disciplina.
O conceito de afecção, em Espinosa, refere-se ao modo como corpos e mentes se afetam mutuamente nos encontros com outros corpos, ideias e forças do mundo. Para o filósofo, trata-se das variações que ocorrem em nossa potência de existir e agir a partir dos efeitos produzidos pelas experiências externas (EspinosaESPINOSA, 2015). Representa as modificações que se operam em nós quando somos atravessados por algo externo — no caso da disciplina, pelas discussões, materiais, práticas, emoções e experiências compartilhadas no grupo. À medida que avançávamos nesses encontros, fomos percebendo como as diferentes afecções variavam nossa potência de agir, ampliando-a quando produziam alegria, curiosidade e abertura; ou restringindo-a quando provocavam desconforto, resistência ou tensão. Assim, tornava-se possível acompanhar, de forma sensível, como a aprendizagem se dava também no corpo, na experiência e na relação com o outro.
As afecções, entendidas aqui como forças que nos mobilizam, despertam sentidos e nos fazem sentir vivos e em movimento, mostraram-se especialmente potentes quando articuladas às discussões sobre Análise Institucional. Autores como Lourau (1995) e Lapassade (1983) destacam que os sujeitos são atravessados por forças institucionais, afetivas e coletivas que moldam práticas, discursos e modos de participação. Esse campo teórico-metodológico, voltado a compreender as instituições como organismos vivos, atravessados por normas, desejos, práticas e conflitos, permitiu reconhecer como os afectos constituem uma dimensão fundamental nos modos de estar e agir dentro das instituições. Assim, compreender as afecções significou também perceber como somos produzidos institucionalmente e como, ao mesmo tempo, produzimos as instituições por meio dos encontros, das escolhas e das tensões que atravessam nossos percursos.
A articulação entre a ideia de caixa e a noção de afecção permitiu recolher, ao longo dos encontros, as múltiplas formas pelas quais os conceitos da Análise Institucional foram se materializando e ganhando corpo para cada estudante. A caixa passou a agregar não apenas os conteúdos teóricos, mas também as experiências trazidas de campo, os desafios institucionais enfrentados nos diferentes contextos de pesquisa, as expectativas, as dúvidas e os movimentos micropolíticos que emergiam a cada encontro. Nesse processo, pensamentos e sentidos se encontravam, friccionavam-se e, muitas vezes, se reinventavam, produzindo um conhecimento vivo, situado e singular.
Ao final, a “caixa de afecções” tornou-se mais do que um instrumento pedagógico: configurou-se como um lugar de memória, criação e implicação, capaz de registrar o percurso coletivo e, ao mesmo tempo, revelar as transformações que cada estudante vivenciou no decorrer da disciplina. Assim, a caixa se constituiu como um espaço privilegiado de elaboração, no qual teoria e experiência se entrelaçaram, produzindo não apenas aprendizagens conceituais, mas também deslocamentos subjetivos e institucionais.
Nas páginas seguintes, reunimos as produções das caixas de afecções tal como foram apresentadas e expressas ao longo da disciplina. Elas se manifestaram em diferentes linguagens — poesia, pintura, desenho, reflexão — além das descrições dos objetos contidos em cada caixa e dos significados a eles atribuídos.
REFERÊNCIAS
ESPINOSA, Bento de. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
LAPASSADE[SA1.1], Georges. Grupos, organizações e instituições. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983.
LOURAU, René. A análise institucional. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1995.
LAPASSADE, Georges. Grupos, organizações e instituições. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983.
Entre afecções e instituições: produções de sentidos em uma experiência de ensino
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DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.406261303
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ISBN: 978-65-258-4040-6
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Palavras-chave: 1. Educação. 2. Instituições. I. Benizzi, Alessia. II. Abrahão, Ana Lúcia. III. Dôrea, Ana Paula Ribeiro. IV. Título.
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Ano: 2026
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Número de páginas: 54
- Alessia Benizzi
- Ana Paula Ribeiro Dôrea
- Arthur Marco Pegoretti da Cunha
- Beatriz Fileme
- Bianca da Silva Nunes
- Hildegard Soares Barrozo de Lima
- Jeremias Kalupeteca Joaquim Dambi
- Juliana Vieira de Moraes
- Luana Asturiano da Silva
- Luciana Araújo Lima Machado
- Maiara Soares Baratela
- Rafaella Cristina de Oliveira
- Raquel Dias Botelho Borborema
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