Diga-me com quem andas, então direi quem tu és: o processo de gramaticalização do então
Para a abordagem funcionalista da Linguística, a língua é um fenômeno dinâmico, influenciado pelo uso e pelo contexto. Segundo essa perspectiva, a gramática está em constante adaptação, sendo moldada pelas experiências dos falantes e pelas situações comunicativas. Há ainda uma interdependência entre sintaxe, semântica e pragmática, de modo que as categorias linguísticas não são estáticas, mas sim sensíveis às pressões do uso.
O alinhamento teórico funcionalista assume uma posição contestadora das categorias linguísticas rígidas, propondo que gramática e discurso se influenciam mutuamente. A gramática é vista como uma estrutura em constante mutação, materializando-se em consequência das eventualidades do discurso. Assim, a língua é pensada como um fenômeno afetado pelo uso e pelo impacto dessa experiência sobre o sistema cognitivo dos falantes.
O foco da pesquisa é o item linguístico “então”, cuja natureza polissêmica permite a atuação como advérbio, conector textual e marcador discursivo. Usamos dados do corpus “Linguajar do Sertão Paraibano” (2011-2012) para exemplificar múltiplos usos do “então” em situações reais de oralidade, evidenciando seu papel como sequenciador-retroativo-propulsor e sua capacidade de ativar relações anafóricas e propulsionar a progressão textual.
A pesquisa parte da hipótese de que o item “então” experimenta um processo de mudança categorial na oralidade, sendo influenciado por fatores como frequência de uso e rotinização. Esses fatores contribuem para o processo de gramaticalização do item, potencializando e ativando outras funções distintas da original. O estudo busca descrever o comportamento funcional do “então”, mapear seus múltiplos usos e apontar fatores sintático-semânticos e discursivo-pragmáticos que motivam as mudanças.
A estrutura da obra é composta por três capítulos: o primeiro aborda o alinhamento teórico funcionalista e os princípios de gramaticalização; o segundo revisa o tratamento do “então” em gramáticas tradicionais e estudos acadêmicos, discutindo sua trajetória de advérbio a conjunção e marcador discursivo; o terceiro capítulo analisa os diferentes domínios de uso do “então” no corpus, propondo matrizes de classificação para evidenciar seu caráter multifuncional e estágio de gramaticalização.
Por fim, ressalto a importância de compreender o dinamismo e a gradualidade das mudanças linguísticas, convidando o leitor a acompanhar o percurso de transformação do “então” de marcador temporal a elo argumentativo e discursivo na língua portuguesa. Esta pesquisa contribui para a descrição linguística das comunidades de fala do sertão paraibano, ampliando a compreensão dos processos de variação e mudança no português e evidenciando o papel do uso na configuração das categorias gramaticais.
Dra. Daiane Aparecida Cavalcante
Diga-me com quem andas, então direi quem tu és: o processo de gramaticalização do então
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DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.380262204
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ISBN: 978-65-258-4138-0
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Palavras-chave: 1. Linguística. 2. Gramaticalização. 3. Língua portuguesa – Gramática. 4. Análise do discurso. 5. Semântica. I. Título.
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Ano: 2026
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Número de páginas: 88